EP novo do Yo la Tengo na área
Mas se você é fã, calma, ainda não é motivo pra empolgação. Nuclear War vale mais como curiosidade e como posicionamento político do que como mais um capítulo na discografia fértil da banda. Nuclear War trata-se de uma regravação (no caso, 4) da música que dá nome a um dos discos mais obscuros da carreira do jazzista Sun Ra.
Gravado originalmente em 82, no auge da guerra fria, Nuclear War foi rejeitada pela Columbia Records, gravadora de Sun Ra na época, o que acabou tornando a música desconhecida do grande público. Até 2001, quando fez parte de uma coletânea de raridades (Unheard Music), só havia aparecido em dois registros, um vinil de 12 polegadas e um álbum, de mesmo nome, lançado somente na Itália.
O refrão, contundente sob um groove dançante repete insistentemente: "Nuclear War, they're talking about Nuclear War/It's a motherfucker, don't you know/if they push that button, your ass gotta go/and whatcha gonna do without your ass".
Pois então, o novo EP do Yo La tengo traz nada menos do que quatro versões de Nuclear War. Se a propriedade em regravar a canção no momento em que os Estados Unidos voltam a adotar uma política internacional belicista é inquestionável, o problema é que como a característica principal da composição de Ra é a repetitividade do refrão, fica praticamente impossível escutar as quatro versões do Yo la Tengo em sequencia sem um enfado profundo.
O que não quer dizer que as versões em si sejam ruins ou despropositadas. De qualquer forma, enquanto muitos dos medalhões do pop americano reagiram ao 11 de setembro com canções e álbuns que exaltavam o orgulho yankee, é gratificante ver a resposta do Yo La Tengo em forma de reflexão ao rolo compressor do presidente amante da guerra.
Na primeira, o refrão se repete por oito minutos com um andamento mais rápido do que o da versão original e um instrumental feito apenas pela percussão. Na segunda e melhor, soma-se a percussão a um loop de guitarra e um corinho, pretensamente composto de crianças, que repetem o refrão. deixando transparecer a mudança de humor na voz e na entonação com que cantam o refrão. Como se mesmo as crianças entendessem o recado ao mesmo tempo divertido e sinistro do refrão. De longe a versão com mais impacto. A terceira é a que conta com um arranjo mais elaborado, naipe de metais e 15 minutos de duração. A quarta versão é um remix, feito pelas mãos de Mike Ladd, importante nome no undergound hip-hop. A versão ressalta o coro das crianças, colocando-o bem a frente de uma base com batidas quebradas bem lo-fi. Boa versão, mas fica difícil dar atenção a ela depois de mais de 25 minutos de "it`s a motherfucker . . ." na cabeça.
A boa agora é esperar pelo novo álbum com inéditas, que deve sair no início de 2003.